Categoria / tipologia: Arquitectura civil/ edifício de habitação, palácio, etc.
Materiais: Alvenaria, cantaria, betão e ferro.
Propriedade: Particular
Diploma legal: Boletim Municipal nº 890 de 10 de março de 2011, Edital nº 22/2011 de 1 de março
Bibliografia: França, José Augusto artigo de Maio de 2002, in P.º 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1-, Flls. 06; França, José Augusto A Arte em Portugal no Século XX 1911-1961, 2ªa Ed., Bertrand Editora, in P.º 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1-, Flls. 59-60 ); França, Prof. Dr. José Augusto artigo de Maio de 2002, in Pº 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1- Flls. 06. Fernandes, Arq. José Manuel, in Pº 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1- Flls. 12. Pereira, Nuno Teotónio, in P.º 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1-, Flls. 32. Pereira, Nuno Teotónio e Irene Buarque, Prédios e Vilas de Lisboa Ed. Livros Horizonte in P.º 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1-, Flls. 35 Pereira, Nuno Teotónio e José Manuel Fernandes, A Arquitectura e o Estado Novo ( 1926-59 ) Opúsculo (?) tendo por título “Colóquio Sobre o Estado Novo – Das Origens ao fim da Autarcia 1926-1959” tendo decorrido entre os dias 4, 5, e 6 de Nov. de 1986 in P.º 06 / DPC / IM / 2003, Anexo 1-, Flls. 42; Publicação sem título nem menção de autor, da Ed. Gradiva in P.º 06 / DPC / IM / 2003, Anexo 1-, Flls. 52; Idem, Ed. Gradiva in P.º 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1-, Flls. 53; Calado, Maria e e Vítor Matias Ferreira, Lisboa, Freguesia de S. Sebastião da Pedreira in P.º 06 / DPC / IM / 2003, - Anexo 1-, Flls. 68.
Para a História da Cidade de Lisboa, o Bairro Azul possui um interesse indubitável, predominante do ponto de vista estético-paisagístico, arquitectónico e social; por ser um conjunto único e consideravelmente bem preservado. Sublinha-se a sua importância para a investigação da História da Cidade, no facto de o conjunto se revestir de elementos arquitectónicos/artísticos de Autenticidade e até de Exemplaridade no que se refere à Art Déco, ao modernismo e às artes decorativas aplicadas á arquitectura relativamente a este período e época. Esta situação posiciona-o, relativamente à cidade de Lisboa, numa situação privilegiada, ao dispor do investigador que pretenda aprofundar, interpretar e esclarecer certos aspectos de modernidade ocorridos naquele período de charneira e de viragem que se deram na Cidade e mesmo no País. Os aspectos estético – sociais são merecedores de estudo, pois articulam-se com fenómenos de sociais novos e que se cimentaram ao longo do tempo, criando com isso um sentimento de pertença e de vivência únicas com o meio envolvente.
“As três ruas do Bairro Azul nasceram de um plano mais vasto e ambicioso que daria pelo nome de Bairro de França, em terras ainda baldias acima do parque Eduardo VII, junto à velha Estrada da Circunvalação...em sitio da Palhavã. As novas ruas do Bairro Azul inovaram o tecido e a arquitectura da cidade nos anos 30, tendo como polo centralizador a nova Igreja paroquial de N. Sra. de Fátima ( 1934-1938 ),...marcando...um sinal específico de modernização de gosto institucional...exemplifica...uma arquitectura protagonizada por engenheiros civis que traçaram os projectos, como muito então se fazia na cidade, à míngua de arquitectos cujo modernismo punha dúvidas). O Prof. Dr. José Augusto França, ao referir-se ao Bairro acentua : “Tal como Silva Júnior, Norte Júnior, figura ilustre de um gosto neo-romântico afrancesado em luxo nos princípios do século, não desdenhava certas incursões nas “arts déco” em Portugal, como vimos, geralmente combinadas com o «estilo vienense». Tal gosto, assimilando certos signos morfológicos neo-românticos, definiria um Bairro de boa burguesia, o Bairro Azul, a S. Sebastião da Pedreira, emergindo do malogrado «Bairro de França» anunciado em 20, e construído em rendosa operação financeira entre 30 e 37, sem precisar de arquitectos diplomados, e contentando-se com construtores civis e engenheiros civis”). O “Bairro Azul” definiu um gosto derivado do “Arts Déco”, jamais francamente seguido em Portugal...a vários títulos, e na sociologia urbana da capital, o “Bairro Azul” sucedeu ao Conde - Redondo. Testemunho de um momento da cidade, o “Bairro Azul” contextualiza-se numa fase de crescimento demográfico e de diversificação das actividades económicas merecedora de...protecção municipal para que a sua imagem patrimonial não seja alterada .. .
O Bairro Azul constitui um conjunto arquitectónico de homogeneidade ímpar – quase todo edificado na década de 30, com prédios de um programa burguês de esquerdo - direito em gosto Art Deco, para servir uma classe média dos tempos do apogeu salazarista, com algum luxo e dignidade (...) possui projectos de construtores civis, mas também de arquitectos como Norte Júnior;. (...) o ângulo estranho do plano do bairro resultava do desenho de Cristiano da Silva para uma vasta urbanização que, cerca de 1930, deveria ter coroado o seu sonhado prolongamento da Avenida da Liberdade com arruamentos em simetria, de cada lado do Parque Eduardo VII. Afinal o bairro ficou sozinho, pois nada do restante projecto se realizou, provando a vocação lisboeta para os tecidos incompletos e para a justaposição de bairros de origens diversas” .
Só na viragem do Séc. XIX para o Séc. XX, “(..) enquanto se construíam as Avenidas Novas, o estilo ecléctico europeu fez a sua aparição em Lisboa, tendo sido substituído no desenho das fachadas pelo estilo Art Deco, no início dos anos 30.Tudo isto desenhado nas pranchetas dos construtores civis, que iam seguindo as modas da época, com a ausência quase total de arquitectos .Este período coincidiu com a introdução do betão armado na construção dos pavimentos, posto que nas paredes tal ocorreu muito mais tarde. A arquitectura nova que Cassiano protagonizava ganhava coerência como expressão formal dos novos processos de construção com base no betão armado. Com as suas intervenções em prédios da Av. Álvares Cabral e Rua Nova de S. Mamede a arquitectura modernista passou a dominar o desenho das fachadas, vindo a suceder noutros bairros, tal como o Bairro Lopes, ao Alto de S. João.”
“É neste contexto que se dão as primeiras influências do movimento moderno, na linha que culminou na exposição das Artes Decorativas em Paris (1925), o que...se traduziu no enriquecimento formal de fachadas e átrios de entrada, ganhando simplicidade ou opulência consoante a categoria social dos bairros o ditava. Baixos-relevos em estuque ou cimento, painéis policromados de mosaico cerâmico, ornatos salientes, pilastras e frisos, balaustradas, frontões e alpendres são motivos que aparecem com abundância neste vocabulário decorativo”.
Num outro lugar, é possível observar como Keil do Amaral descreve a medida de Duarte Pacheco de lotear uma faixa lateral do Parque Eduardo VII para que ali fossem construídos prédios de prestígio. Por outro lado, “ (...) a Art Déco (...) processo artístico dos anos loucos de 1920-1930, com conotação simultaneamente algo conservadora e modernizante (...) através do qual se caldearam pouco a pouco os valores modernos que iam sendo propostos por uma Bauhaus ou por um Le Corbusier (...) exprimindo (...) intenções bem mais ousadas vindas dos pensamentos radicais dos anos da guerra e a que se chamava esprit noveau, criação de Le Corbusier, branca e purista.
Em Portugal (...) o chamado «modernismo arquitectural» afirmou-se com o período de vulgarização do betão amaciado, que ocorre pelos anos de 1920-1930. José Manuel Fernandes, na Arquitectura Modernista Em Portugal, na década de 1940, dava como exemplo de “moderno” (termo vulgarizado pela revista Arquitectura Portuguesa desde 1921) o de um palacete com todos os «tiques» de arte nova tardia, [1890-1940], assim como pela influência das artes decorativas, até chegar ao purismo, no contexto nacional, reportando-se em simultâneo aos movimentos mais vanguardistas europeus (...); assim, ao estilo artes decorativas correspondia uma procura de geometrização e de simplificação das formas construtivas em geral partindo da base estilística clássica “estilizada” e depurada. Como resultado natural desta tendência (...) foi uma planificação dos elementos decorativos nas superfícies da fachada, aspecto que ajudou a suavizar os volumes (...) e a realçar as linhas, as texturas, e até as cores.
Finalmente, é de realçar que o Bairro Azul “(...)é um dos exemplos mais significativos do modernismo, não só pela sua relação com o conjunto, mas também pelas suas tipologias de habitação ao nível do prédio de rendimento”.
A par de constituir um testemunho notável de modernidade, pode aqui aplicar-se o Critério da Integridade, pois trata-se de um Conjunto de Bens representativos de uma área físico - cultural em que, apesar de uma natural evolução, esta se ter processado de forma coerente em relação ao próprio meio natural, às forças económicas, sociais e culturais desse meio. A estas invocações podem acrescer-se as que se prendem com o Critério de Autenticidade, pois o conjunto manteve, ao longo do tempo, valores originais que não escamotearam nem se sobrepuseram às edificações, funções, podendo estar em risco os enquadramentos originários por via de alterações futuras e imponderadas . Pode-se ainda acrescentar que o conjunto detém um número de exemplares arquitectónicos ou urbanísticos que, por serem excepcionais, e por se inserirem naquele contexto espacio - temporal definido ( anos 30 do Séc. XX ) independentemente do tempo próximo, médio, ou longo, podem consubstanciar o Critério de Exemplaridade.
Actualmente verifica-se a ocorrência de algumas dissonâncias entretanto introduzidas, nomeadamente a substituição, com alteração do desenho, de algumas caixilharias, em particular nas traseiras dos prédios, a instalação de condensadores do equipamento de condicionamento de ar em algumas fachadas, ou a inclusão de elementos de carácter publicitário; porém, por serem de pouca monta e facilmente reversíveis, pode-se afirmar que a imagem global do Bairro permanece bastante coerente com as suas características originais. Carlos Cabaço e João Reis