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Placa evocativa a Vitorino Nemésio
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Placas evocativas

Casas recheadas de História
Figuras Recordadas nas Fachadas dos Edifícios de Lisboa

«Uma versão mais sintética de monumento é a lápide comemorativa. Situada nas fachadas das casas, a lápide prescinde do pedestal e do retrato, explicando a importância da personagem através do texto» ﴾1) (Cit. Antoni Remesar)

Lugares de Memória

No plano iconográfico e plástico, torna-se necessário tecer algumas considerações. À primeira vista, as placas comemorativas possuem a mesma configuração, tratando-se de pequenas pedras planas de pequena espessura, rectangulares, onde se inserem inscrições ou dizeres sobre uma determinada figura ou um acontecimento, destinadas a serem colocadas num edifício. Contudo, cada construção arquitectónica onde se destaca a fachada de um determinado edifício possui, como sabemos, diferenças substanciais. Basta referir, para não ir mais longe, a sua traça épocal; do seu desenho arquitectónico; a configuração das suas varandas; a cor; a sua luminosidade e o contexto urbano onde o edifício está inserido. E nessa medida, cada lápide é recebida e percepcionada esteticamente na fachada, sob modos diferentes até ao mais ínfimo pormenor artístico. A maior parte das placas comemorativas é executada em pedra, aliás aqui é necessário referir que lápide vem do latim lápida, que significa exactamente «pedra». Mas existe um conjunto delas que são metálicas e outras mesmo colocadas em painéis de azulejos ou tratadas como tal. Em todo o conjunto das placas comemorativas há que distinguir aquelas que são inteiramente personalizadas, destacando-se pela introdução de elementos escultóricos trabalhados plasticamente. Existem outras placas comemorativas que estão na via pública, mas que são singulares, por se encontrarem colocadas e instaladas no chão, elas confundem-se com a própria calçada. Dificilmente essas placas de chão, passam a ser um centro de atenção, apesar de serem evocações importantes, dado que não estamos habituados, iconograficamente a percepcioná-las desta forma. E existem outras que merecem destaque pela forma original e diferente como estão evidenciadas. As Placas passaram a ser autênticos elementos de valorização Cultural. Quando voltar a passar por estas ruas, não se esqueça de erguer o seu olhar.

Lugares simbólicos que permanecem entre o real e o imaginário

Constata-se que há nas placas comemorativas nas fachadas, um carácter de efemeridade, numa construção de lugares provisórios, criando atmosferas transitórias, circunscritas a uma periodicidade relativa, não deixa contudo de ser significativa. Isto é, essa figura nasceu, morreu ou passou por qualquer motivo ou razão, trabalhando durante um período naquela casa. Todavia, isto não quer dizer que nalguns casos, essas personalidades não tenham passado nesse espaço grande parte da sua existência. Observa-se que o leque abrangente de factos e das figuras representadas nas fachadas dos edifícios de Lisboa é de tal maneira enriquecido que traça percursos e vivências profundas do nosso Património Cultural. Essas placas evocativas estão à vista de todos, mas poucos reparam nelas. São apontamentos discretos, mas recordam e enriquecem aspectos significativos da nossa Cultura. No entanto, podemos verificar através desta enumeração que são testemunhos preciosos, autênticas relíquias que fazem parte da nossa história, de uma outra forma, em memórias longínquas. Este diálogo sensível, no sentido de espaço urbano, cria e poetiza um circuito lógico, cultural e faz nascer no plano social, uma coerência de interpretações. Raramente as placas comemorativas têm uma relação com a respectiva toponímia. As lápides evocativas nas fachadas ficam a funcionar como que epifenómenos, como sinais microcósmicos, como que isolados daquilo que as rodeiam, precisando e necessitando à partida duma estrutura sociológica, de um suporte de apoio para fazer algum sentido. Essas placas funcionam como se fossem peças soltas, que são partes essenciais de um puzzle, mas que não estão juntas, apesar de estarem ao nível do conteúdo ligadas a um todo, estando portanto aparentemente desligadas de um todo sistémico. Podemos e devemos sempre é tentar construir no tecido urbano da cidade, uma triangulação idealizada, entre o Monumento Escultórico, a lápide comemorativa e a placa toponímica respeitante à mesma figura. Três formas diferentes, para perpetuar e honorificar a memória de algo ou de alguém. Mas é certo que a fascinação duma cidade, está precisamente nesta «desorganização» dispersa, que à medida que vamos aprofundando as coisas, como que aleatórias, vamos ligando uns pontos aos outros. É uma permanente descoberta, ou imagèticamente e, dentro de um estado de espírito lúdico. As placas são nomes, e os nomes são pessoas, e as pessoas são obras.

Manuela Synek

﴾1) : texto intitulado «Ornato público, entre a Estatuária e a Arte Pública» in Roteiro Estatuária e Escultura de Lisboa – Arte Pública, ed. Pelouro da Cultura da C.M.L., 2005

Perguntas Frequentes
Temos um exemplo significativo e bastante recente que foi a escolha e planeamento do espaço para a peça escultórica «Hommage à Pessoa» de Jean-Michel Folon, inaugurada a dia 13 de Junho de 2008, implantada no Largo de São Carlos, local precisamente onde se encontra a placa evocativa na fachada do edifício onde o poeta nasceu.
Existem de facto, pontualmente casos concretos onde o nome atribuído a uma rua com a sua placa toponímica coincide com a lápide evocativa à mesma personalidade que se encontra na fachada de um edifício. Por exemplo, foi descerrada a placa comemorativa do Maestro Pedro de Freitas Branco, no dia 31 de Outubro de 1967, quatro anos depois da sua morte, no prédio nº23 da Rua da Fábrica das Sedas, rua que pertence à Freguesia de São Mamede. A partir do ano de 1968, a placa toponímica dessa rua passou a ter o nome de Pedro de Freitas Branco. Na placa comemorativa a José Dias Coelho descerrada na Rua da Creche, na freguesia de Alcântara. Através de um edital datado de 17 de Fevereiro de 1975, essa mesma rua passou a ter o nome do homenageado. Um terceiro exemplo, tem a ver com a placa de chão, de configuração circular, dedicada aos Timorenses, inaugurada em 1992, em memória às vítimas do Massacre de Dili, ocorrido a 12 de Novembro de 1991, foi colocada precisamente na Praça Cidade de Dili, nome toponímico atribuído por edital de 11 de Julho de 1970, situado na Freguesia de Santa Maria dos Olivais. E, finalmente temos o caso da lápide, inaugurada a 30 de Abril de 1919, em homenagem à figura de Júlio de Castilho, escritor e olisipógrafo, situada no prédio da Rua Pena Monteiro, nº 26 tornejando com o Largo Júlio de Castilho, pertencente à freguesia do Lumiar.
Existem algumas, mas podemos referir que representam casos pontuais. O mais revelador e mais significativo é o caso do Poeta Fernando Pessoa que teve a particularidade de viver e permanecer provisoriamente por dezoito casas diferentes na Cidade de Lisboa. Para além da placa que se encontra onde o poeta nasceu, existe outra na Rua de São Bento, nº 17 e no Jardim Teófilo Braga (antigo jardim de Campo de Ourique) sobre o mesmo poeta, onde nesta última surge escrito o poema da sua autoria «O Poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente…». Sobre o escritor José Gomes Ferreira, aparecem duas placas evocativas: uma na Av. do Rio de Janeiro, nº 33 e a segunda na Rua João Pereira Rosa, nº 6. Sobre a figura de Amália Rodrigues bem como do Poeta Luís de Camões estão assinalados nas respectivas fachadas duas placas evocativas no mesmo local. Outrotanto, está previsto um terceiro trabalho sobre esta fadista uma outra referência à mesma figura para a fachada da Rua de São Bento, onde viveu ultimamente. Sobre o acontecimento da República, é de referir duas placas evocativas em fachadas diferentes, mas em zonas próximas. Relativamente a Sacadura Cabral e Gago Coutinho é de mencionar a existência de três placas evocativas: duas na mesma fachada na Rua da Esperança e a terceira num edifício na Calçada da Ajuda. Quanto à figura do Almirante Barroso, é de mencionar duas placas na mesma fachada na Rua Garrett, nº 13-23 e a terceira, implantada em 2004, na mesma zona, nas Galerias Garrett. Sobre Sacadura Cabral e Gago Coutinho é de destacar duas placas de períodos e géneros diferentes na mesma fachada na Rua da Esperança, nº 164, que pertence à Freguesia de Santos – o - Velho. A mais antiga, data de 1922, concebida em pedra e a mais recente foi inaugurada em 27 de Março de 1997, realizada em latão polido, com gravação em baixo-relevo a preto. Na fachada do edifício da Calçada da Ajuda, nº 27, aparece uma referência a Gago Coutinho, placa implantada a 17 de Fevereiro de 1952. Esta problemática vai também ao encontro da construção de um conjunto de estátuas e monumentos escultóricos dedicados à mesma figura homenageada espalhados por vários locais na Cidade de Lisboa. E existem exemplos suficientes onde isso se verifica, a saber, o caso dos Poetas e Escritores «Fernando Pessoa»; Luís de Camões; Gil Vicente; Eça de Queirós, Antero de Quental, entre outros.
Existe de facto um conjunto de lápides que deixaram de ser recolocadas depois dos edifícios serem demolidos. Foram desaparecendo das fachadas, aquando da alteração ou remodelação das casas. É uma pergunta que exige uma reflexão profunda. Depende a meu ver dos casos concretos. De facto, em muitos desses exemplos, o lugar simbólico como memória não deixa de ser importante, mesmo sendo uma passagem transitória da personagem, sobretudo quando estamos a estudar a área das figuras dos poetas e escritores, porque existem obras sobretudo no campo literário e poético onde o lugar em que o escritor se encontra e vive num determinado período assume uma importância fulcral. Não é perante estarmos numa outra casa que a simbologia do lugar deixa de existir. O desaparecimento de uma das placas comemorativas que levantou grande celeuma foi a lápide que evocava o escritor, poeta e dramaturgo Almeida Garrett que se encontrava no edifício na Rua Saraiva de Carvalho, nº 68, em Campo de Ourique, assinalando a sua morte em 1854. Para acentuar a sua importância importa assinalar que esta placa tem a particularidade de ser inteiramente artística nos seus elementos compósitos, criando e atingindo mesmo uma certa profundidade nos símbolos esculpidos, como a delicadeza de um cortinado em pedra rendilhada, agarrado com borlas nos cantos superiores, apresentando no seu centro, o desenho de uma lira. Penso que, por exemplo, neste caso, deveria estudar-se num local próximo da nova urbanização construída um espaço para ser recolocada.
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