A integrar o Conjunto do Palácio das Necessidades, classificado como Imóvel de Interesse Público, o designado “Obelisco Aquático” apresenta-se como a peça escultórica mais antiga da cidade. Atribuída ao risco do arquitecto Caetano Tomás, a sua transformação em chafariz parece ter sido projecto do arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos que, modificando a dimensão do eixo horizontal, aumenta o seu comprimento, e sem alterar qualquer elemento escultórico, redimensiona a taça quadrilobada, afastando o seu limite das carrancas. Esta alteração permitiu a colocação de bicas nas bocas destes mascarões, num jorro de água doravante dirigido para a periferia da taça, passando a funcionar como chafariz. A elaborada composição dos elementos escultóricos que se erguem em cada lóbulo esguia e despojada do obelisco. Emergente do elemento água, pretende inscrever uma simbólica de poder e varonia. Encimado por uma custódia de espinhos e uma cruz, em bronze, o seu remate, de significância religiosa, relaciona o objecto, evocativo do culto mariano, com a respectiva localização, frontal à igreja da Nossa Senhora das Necessidades. Os quatro elementos escultóricos organizam-se num conjunto que se desenvolve a partir da carantonha, colocando em evidência as bochechas cheias definidoras do prévio instante que caracteriza o acto de soprar, génese de vida. Ladeada por dois golfinhos ou tritões, envolve-se nas plantas aquáticas que a enconcham. Une-se aos vários elementos que naturalmente se metamorfoseiam uns nos outros, ondulante nos efeitos reais ou induzidos, da água e do vento, num movimento acentuado pelas sombras que se projectam sobre ela, em dia de sol aberto. Com alusão ao antigo Egipto e no reforço do vocabulário aquático, de energia e vida, coexistem o obelisco e os papiros. Cativo pelo jardim, este objecto artístico reina sobre uma das mais belas vistas de Lisboa, retrato da memória do poder que elaborou a história e da estética que nos segreda outras geografias.
Maria Bispo