Insuflada junto ao lago do Jardim do Campo Grande, virada a norte, a “Infância” de Sam consubstancia numa única peça, metálica, várias formas que ao serem sopradas se transformaram numa só, tal qual um balão habilmente manipulado na imobilidade e na contenção das suas formas. Desenvolvendo-se na dilatação de umas e na atrofia de outras, esta peça, de cariz caricatural, cobre-se e descobre-se no jogo de deduções críticas. Nada ingénua ou infantil, revela-se provocatória, longínqua que se encontra da censura que tanto penalizou a sátira e assume-se no humor de segunda leitura, que muito o artista gostava de explorar. Transbordando do desenho diário cartoonado, ganha vida na volumetria que a torna independente do traço negro. Na sonolência, resiste sentada ao abandono de si própria, numa colagem individualista quase desesperada que se auto-absorve, deixando em evidência a expressão poderosa da líbido e da maternidade, com que a infância foi convivente. Perspectiva-se, por um lado, a figura masculina vestida de formalidades e, por outro, o exagero dos seios de mulher, arrojando a parte pelo todo de uma nudez absurda. Denunciante de uma falsa moral de consumo fácil e inventor de objectos, de desenhos e esculturas, que conquistam o patamar da alegoria, o criador evidencia um espírito, que nos traços e nas formas, sintetiza a mais sofisticada sátira e a mais incisiva crítica. E, se ao jardim está reservado um tempo de brincadeira no momento da infância, também se promete o lugar do humor que reivindica no adulto uma participação, quando ao espreitá-la, lhe escapa um sorriso cúmplice. Maria Bispo
Acessos:
Carris - Autocarros - 21, 36, 44, 49, 54, 91, 727, 732, 738, 745
Metro – Linha Amarela - Entrecampos
CP Linha de Sintra/Azambuja - Entrecampos, Fertagus