Na cidade imaginária, passamos por portas jamais cerradas, para uma dimensão de tempo e de espaço antes oculta. Na cidade imaginária, a cidade mundana apenas se entrevê na memória da grafia dos lugares, no espectro da arquitectura, no espírito dos signos urbanos, através da metamorfose que o gesto do seu mentor plasmou. A cidade imaginária é um limiar utópico, local de inquietude imagética, onde «Liberdade, Amor, Poesia», como exige Cesariny, podem habitar. A cidade imaginária é a cidade para cada um, é a cidade que está em cada um. Charters de Almeida, seu demiurgo, trabalha a partir de 1983, uma transposição da sua plasticidade abstraccionista para a circunstância espacial da escultura urbana, debruçando-se sobre conceitos e recorrendo a elementos retirados da condição arquitectural, sempre evocando um sentido de acesso, passagem, transição, transmutação talvez, paradoxalmente presentes na natureza do limite, da fronteira, do horizonte. Premiado precocemente em 1961, um ano antes de ter concluído o Curso Superior de Escultura da Escola Superior de Belas-Artes do Porto, o autor esculpia, no dealbar da década de 70, escultura numa escala de interior, visitada pela influência de Giacometti e na qual já emerge um vocabulário formal povoado por pedaços de urbe onde deambulam e se suspendem homens, jardins, troncos. Mas, profecticamente, em 1974, Alexandre O’Neill enseja claramente o salto artístico posterior: «(...) Charters faz pequeno/ e projecta para grande:// Quero vê-lo em grande como aos cactos nos desertos,/ para uma outra aventura que se chamará a superfície.// Um dia.» Assim o tem feito no estrangeiro e em Portugal, nomeadamente em Lisboa com a escultura da Ribeira das Naus e a “Cidade Imaginária” em Telheiras. Aqui chega, novamente, a uma solução de grande eficácia plástica, para uma rotunda com forte confluência de tráfego que importava singularizar no traçado da malha urbana. A vermelho, cor que Charters de Almeida diz suportar o máximo e o mínimo de luz, erguem-se volumes que evocam a gramática arquitectónica dos plasticismos suprematista e neo-plasticista, levantam-se vultos de fôlego gótico, ascendem toranas ou portões abertos para o vazio prenhe, originários da arquitectura budista indiana, eleva-se a silhueta do arquétipo consubstanciado de uma cidade quimérica. Silvia Câmara
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