Parque Eduardo VII
À imagem das grandes capitais da Europa e Estados Unidos da América, também Lisboa projectará o seu parque central, integrado na rede de melhoramentos da capital a implementar por Ressano Garcia em finais do século XIX. A ideia da sua criação surge logo em 1882, três anos depois do início da demolição do Passeio Público e abertura da Avenida da Liberdade, tomando a designação de Parque da Liberdade. Para o desenvolvimento do projecto efectua-se um concurso internacional, do qual será vencedora a proposta de Henri Lusseau, numa linguagem romântica, cuja dispendiosa implementação, provocaria a sua reformulação e adaptação a soluções economicamente mais viáveis. Os atrasos nas expropriações e a falta de verbas constituirão entraves à prossecução do projecto, que assim verá as sua obras continuamente adiadas, com intervenções parcelares, que atravessarão todo o final de oitocentos, a queda da Monarquia, a Primeira República e o Estado Novo.
A denominação actual, Parque Eduardo VII, ficou-lhe da visita efectuada em 1903 pelo monarca inglês, momento esse, consagrado num busto em bronze da autoria de Albert Bruce-Joy, oferecido ao município pela British Historical Society of Portugal já em 1985 e inaugurado pela Rainha Isabel II de Inglaterra.
O parque, como hoje o conhecemos, é o resultado da intervenção do Arquitecto Keil do Amaral implementada a partir de 1945. Recuperando a ideia de miradouro monumental sobre a cidade que se desenvolve a Sul é marcado por um eixo central relvado, ladeado por alamedas. A presença da calçada portuguesa e no topo, as duas colunas coroadas de louros, acentuam a axialidade e formalismo do conjunto, numa clara alusão ao poder instituído numa estética que pontuou toda a cidade à época. Formalismo esse, que Keil consegue diluir nas zonas mais arborizadas que se desenvolvem de ambos os lados, ao tirar partido, de forma subtil, do traçado de cariz romântico proveniente dos primeiros projectos para o Parque da Liberdade, no respeito pela morfologia do lugar.
Conjugando preexistências, integrando edifícios como o Pavilhão Carlos Lopes (antigo Pavilhão das Indústrias patente na Exposição do Rio de Janeiro em 1922 e que viria a ser remontado para a Exposição Industrial Portuguesa de 1932) constituirá, uma verdadeira unidade, conferida pela mão do arquitecto Keil do Amaral, que não descurou o recurso à arte pública, nomeadamente à estatuária, para enriquecer este espaço de lazer.
Do conjunto da estatuária existente, a obra mais recuada no tempo, é a “Nayade” da autoria de um discípulo de Machado de Castro, Assis Rodrigues, que esteve inicialmente no Passeio Público, na cascata construída em 1835, passando, aquando da sua demolição, para o Jardim da Estrela e posteriormente para a ilha do grande lago junto à Estufa Fria, onde se encontra actualmente.
O antigo Pavilhão das Indústrias, adaptado a sala polivalente, integra na sua construção elementos escultóricos da autoria dos Costa Motta, (tio e sobrinho) que inclusive, viajaram para o Rio de Janeiro para acompanhar e finalizar os seus trabalhos na Exposição em 1922. Destacam-se igualmente, os dois painéis de azulejo da autoria de Jorge Colaço, com temas épicos da nossa história produzidos na fábrica de Sacavém em 1922.
O seu acesso principal foi enriquecido com duas obras de Raul Xavier. Figuras femininas majestáticas e simbólicas: a alegoria à Arte com pincéis, maceta e escopro, na mão esquerda, e um torso na mão direita, numa alusão à pintura e à escultura. Na alegoria à Ciência, os seus atributos integram a coruja, sobre uma esfera armilar, símbolo do conhecimento racional, e o livro numa alusão ao conhecimento e à sabedoria.
Da década de 50 destaca-se o trabalho colocado no lago do roseiral, da autoria de Euclides Vaz, uma figura feminina com cavalo, numa linguagem claramente moderna não abandonando, no entanto, um certo academismo e formalismo. O “Vento Garroa” de Soares Branco, executado em mármore de Estremoz, em que a figura segura com a mão esquerda a proa de um saveiro, a embarcação típica dos pescadores da Caparica. As peças de Stella Albuquerque, figuras estáticas no seu formalismo académico e idealizado, articulam corpos femininos marcados por uma força e vigor quase masculinos. A “Mãe e Filho” de António Duarte, a figura reclinada de Vasco Pereira da Conceição e a “Menina Calçando a Meia” de Leopoldo de Almeida não fogem à regra da representação do feminino nas suas várias possibilidades. De finais dos anos 60, a peça de Leopoldo de Almeida afasta-se da linguagem mais formal que marcara o conjunto de peças da década anterior, imobilizando fotograficamente a sua representação, transmitindo através de uma tarefa do quotidiano toda a sensualidade que a singeleza deste acto pode conter. Numa linguagem diferente, fugindo ao academismo que marcava habitualmente as encomendas oficiais, destacam-se os dois grupos de crianças, destinados ao parque infantil, da autoria de Martinho Félix de Brito, com um tratamento mais angular das figuras, despojadas estas de elementos supérfluos. Residem nos breves apontamentos da indumentária, como o punho, uma ou outra prega os elementos identificadores dos trajes e dos respectivos sexos. De evidenciar as mãos que sobressaem das peças definindo os percursos de leitura da obra de arte, sempre culminando nos conjuntos de cabeças que se tocam, numa encenação de afectos juvenis.
Como peça representativa de um novo tempo político e cultural, surge-nos o monumento evocativo do 25 de Abril de 1974, implementado no local do pedestal destinado à estátua equestre do Condestável, que nunca chegou e ser construída. Comemorava-se então, o vigésimo quinto aniversário da revolução dos cravos, o autor, que se destacara ainda em tempos da ditadura, por ter marcado uma viragem na escultura ao libertar-se da iconografia oficial, desconstrói o referido pedestal numa atitude algo provocadora, recordando os valores da revolução.
A quase totalidade da estatuária reunida no Parque Eduardo VII é, na sua essência, representativa da encomenda oficial do Estado Novo, exceptuando a peça de Cutileiro. Se a generalidade dos artistas seleccionados foi premiada, nas suas características e qualidades estéticas, pela Sociedade Nacional de Belas Artes, não será estranho, por outro lado, estes artistas, na sua maioria, terem sido agraciados com prémios do Secretariado Nacional de Informação.
Desde a “Nayade” de Assis Rodrigues, peça recuada no tempo, ao cariz simbólico da Arte e da Ciência de Raul Xavier, até à imponência da figura feminina de Soares Branco, o Feminino constitui a temática condutora, neste programa decorativo de alguma forma coerente, académico e linear, representativo do que de melhor se fez, entre nós, nas décadas de 50 e 60 do século XX, contrariando esta unidade, surge díspar a peça de Cutileiro.
Álvaro Tição