As contínuas transformações que as práticas artísticas têm imprimido aos seus objectos deram a perceber uma articulação com o espaço envolvente. Que este não é apenas uma realidade física, mas um lugar vivido como um conjunto de relações com uma identidade e uma memória, é uma ocorrência significativa manifestada no curso das reconfigurações do próprio gesto artístico.
Se o monumento foi a redundância dessa ordem simbólica e celebrativa, muitas vezes corporizada no herói, que o humanismo tanto celebrou, a tentativa modernista de rasurar a anterioridade dessa ordem e encontrar uma liberdade formal confrontou-se com as relações de força do lugar e viu-se integrada no processo produtor de mais-valia das trocas das forças económicas do lugar. Uma actuação sensível e consciente deste facto, atraída pela experiência critica do lugar, parece animar a prática de muitos artistas, inclusivamente nos espaços urbanos.
A possibilidade de experimentar uma relação dinâmica com os lugares, sujeita à indeterminação da vivência ou surpreendendo as suas determinações, permite escapar à reprodução da sua origem prévia e produzir uma diferença na vivência do próprio lugar, talvez mais critica ou potenciadora de outras possibilidades perceptivas.
Pedro Lapa