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Fachada no Lg. Santa Clara, Luís Ferreira, séc. XIX (2ª metade)
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Jardim Guerra Junqueiro (Jardim da Estrela)

O Jardim da Estrela constituiu, a seguir ao Passeio Público, o segundo grande espaço ajardinado da cidade, espelhando a vivência burguesa da Lisboa da época do romantismo. Após as obras que se desenvolveram ao longo de três anos em que se destacaram os jardineiros Jean Bonard, João Francisco e o arquitecto Pedro José Pezerat, a inauguração ocorre em Abril de 1852, cerca de vinte e quatro anos antes do início da abertura da Avenida da Liberdade.

Fugindo ao traçado ortogonal que marcara o Passeio Público, o Passeio da Estrela, como foi inicialmente conhecido, apresenta um desenho de jardim à inglesa, paisagista, reflectindo as correntes internacionais da época relativamente à jardinagem. O relevo é aproveitado para recriar recantos, grutas naturalizadas ou pequenas elevações dotadas de amplas panorâmicas. Paralelamente, instalaram-se uma série de equipamentos como estufas e quiosques, assim como lagos e fontes, criando um ambiente pitoresco e bucólico ao gosto da época, sendo todo o conjunto resguardado por um gradeamento. A sua popularidade aumenta significativamente a partir do momento da demolição do Passeio Público, iniciando-se um período marcado pelas festas, feiras e quermesses no Passeio da Estrela.

Denominado oficialmente Jardim Guerra Junqueiro, vai receber numa primeira fase algumas esculturas provenientes do Passeio Público, nomeadamente a de Assis Rodrigues “Nayade”, actualmente no Parque Eduardo VII, e um par de cisnes em pedra, hoje retirados, que anteriormente decoravam o lago e cascata que fechavam o lado norte do referido passeio.
Outras duas esculturas, representando figuras masculinas reclinadas, uma com um cão e outra com um leão de cujas bocas jorra a água para os lagos, de origem desconhecida, denotam um tratamento académico, podendo corresponder às duas estátuas representando os rios e cedidas à Câmara em 1876 pela Real Academia de Belas Artes, referenciadas como não tendo qualquer merecimento artístico. O tema era no entanto recorrente, encontrando como exemplares de qualidade, os existentes na Avenida da Liberdade, representando os Rios Tejo e Douro da autoria de Alexandre Gomes.

Após a implantação da República, será colocado no jardim um conjunto de esculturas, cuja imagem marcará definitivamente esse espaço, também aberto à contemplação do objecto artístico. A primeira, “O Cavador” da autoria de Costa Motta (tio), obra figurativa que representa com realismo fotográfico e de forma naturalista, a figura de um trabalhador com enxada em pleno movimento e rico de expressão.

O busto do Actor Taborda, falecido em 1909, da autoria de Costa Motta (sob.), tem um exemplar idêntico colocado no átrio do Teatro Nacional D. Maria II, ambos da iniciativa da Comissão de Homenagem ao Actor Taborda. O busto representa o actor envelhecido, com as marcas do tempo, constituindo um retrato fiel do homenageado, numa linguagem marcadamente naturalista, com elevada expressão e dimensão psicológica, enquadrada pelo academismo corrente e por influências recebidas aquando da estadia em Paris do escultor. Da mesma autoria, a escultura “Guardadora de Patos” ou “Filha de Rei Guardando Patos” foi exposta pela primeira vez na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1914, numa versão de reduzidas dimensões em mármore. Mais tarde, possivelmente em 1917, seria passada a lioz, ampliada para tamanho natural e colocada num dos lagos do Jardim da Estrela. A temática encontrou-a, o escultor, no conto de fadas que Eugénio de Castro adaptou para a poesia. Transposta para a pedra, em todo o seu movimento e naturalismo, apresenta-nos um retrato da sua filha Emília. Escultura de carácter despretensioso e decorativo, denota a influência dos movimentos parisienses da Arte Nova ao nível dos elementos vegetalistas e curvilíneos. Não fugindo à linguagem naturalista, Simões de Almeida (sob.) executa nos primeiros anos da República, uma das mais populares e apreciadas esculturas existentes no jardim – “O Despertar”, conhecida igualmente por “A Preguiça”, figura feminina de grande expressividade, apresenta o tratamento anatómico de forma muito elegante e pleno de feminilidade. O momento é captado de forma fotográfica, retratando a metáfora do acordar também para a vida e do despertar para a puberdade com toda a inocência que o escultor registou no sorriso e no olhar semicerrado deste nu feminino. Em 1915, um gesso patinado de bronze do Despertar, integrou a representação portuguesa na Exposição Internacional Panamá–Pacífico, em São Francisco da Califórnia, que comemorou a abertura do Canal do Panamá.

Um seu discípulo, Salvador Barata Feyo, é o autor da estátua de Antero de Quental (1842-1891), filósofo e poeta realista, modelado numa linguagem moderna, com tratamento simplificado das formas não obstante o barroquismo que se depreende do conjunto imponente e do movimento dos panejamentos. O conjunto de estatuária do Jardim da Estrela abarca peças datadas desde finais do século XIX até aos nossos dias, destacando-se um conjunto de esculturas de índole naturalista, representativo de alguns dos mais significativos escultores da época e da encomenda pública.

Álvaro Tição

   
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